Eu
não sei se vocês sabem do que vou falar: mas, alguns de nós ao entrar na
adolescência começamos a perceber que eles não eram aquelas “superpessoas” que
imaginávamos; e começamos a ver os erros que eles cometeram (e cometem) na
vida, as falhas na educação que recebemos. E ainda assim são nossos pais, que
em meio a decepção amamos. E isso é o tipo de coisa que sempre será difícil de
lidar.
Então,
começamos a olhar para nossos pais como pessoas que não tem nada a ver conosco
– é engraçado como até apontar semelhanças físicas é uma espécie de ofensa –,
porque sempre pensamos “são meus pais, mas não tenho nada deles! Nada!”. Você
passa a admirar outras pessoas e a pensar como seus pais não são nada daquilo. Assim, nos tornamos distantes, frios uns com
os outros, e a vida deixa de ser dividida, passando a ser quase que estranhos.
Acho
que exagero?
Um
dia, há alguns anos quis dar um presente ao meu pai com algo que ele realmente gostasse; não
uma agenda, ou uma camisa, mas algo realmente legal. E vi que não sabia que
tipo de música ele gostava de ouvir, se ele tinha bandas preferidas; nem se ele
tinha um estilo de livro preferido, ou autor que admirasse; não sabia que era o
melhor amigo dele, ou o que ele fazia quando não tinha nada para fazer; não
sabia qual o foi o melhor lugar para onde ele viajou; nem qual era o seu maior
arrependimento na vida; não sabia nem o que ele esperava de mim, o que gostaria
que fizesse da minha vida (claro que poderia dizer: que estude, tenha um bom
emprego e seja feliz. Mas isso é tão vazio quanto não dizer nada).
E
ele não sabia nada disso sobre mim também.
Depois
você cresce mais um pouco e vê que talvez, um dia, você seja pai também. E pelo
menos para mim, isso impôs uma carga de generosidade quanto ao que penso sobre
meus pais. E ao imaginar-me do modo que sou, com meus defeitos, minhas
limitações, meus medos e tendo em meus braços uma criança que é minha, e que em
tudo depende de mim; pela qual eu dedique tudo, tudo, tudo, e ainda assim sei
que vou falhar muitas e muitas vezes; e que um dia ela pode lançar sobre mim o
mesmo olhar severo que lancei sobre meus pais, o olhar de quem fez 18 anos e
acha que sabe tudo da vida, porque viu alguns filmes e livros e chorou no
travesseiro algumas dezenas de vezes.
Certamente
ainda sou jovem, e continuo não sabendo de muita coisa. Não sei o que é dizer
não para um filho, não sei o que é vê-lo doente, não sei o que é não ter
dinheiro para pagar as contas, não sei o que ter amigos que morreram, eu não
sei o que é ter pais que morreram... Nesses 26 anos de vida, sei muito pouca
coisa, sei apenas que não sei quase nada. Esse poucos anos (que é o que meus
sogros tem de casamento) me impõe a humildade, pois sou ignorante da vida. E a
humildade obriga a perdoar meus pais.
Não
só pelo que fizeram, mas pelo muito que ainda farão que exigirá de mim perdão.
Para perdoar meus filhos (que se Deus permitir um dia terei) quando eles não se
encaixarem no que sonhei para eles, e para pedir perdão quando eu falhar, e
falhar exatamente como meus pais.
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