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sexta-feira, 7 de março de 2014

Quaresma



Deserto da Judéia


Notemos que a Quaresma tem 42 dias, computando os domingos. Se subtrairmos os domingos, restam 36 dias de abstinência, que formam a décima parte do ano inteiro, pois como o ano tem 365 dias, 36 é um décimo. Mas a isso se acrescentam os quatro dias precedentes para se ter o número sagrado de quarenta dias, que o Salvador consagrou com seu jejum. Existem três razões para se jejuar por quarenta dias.

A primeira é dada por Agostinho: São Mateus enumera quarenta gerações entre Adão e Cristo. Se o Senhor desceu até nós passando pelo número quarenta, para que ascendemos a Ele também devemos passar por esse número quarenta. O mesmo autor fala em outra razão: para alcançar os cinquenta, símbolo do repouso bem-aventurado, é necessário acrescentar uma dezena ao quarenta, simbolo do tempo de trabalho da vida terrena. Por isso o Senhor ficou quarenta dias com seus discípulos depois da ressurreição, e pouco mais tarde enviou-lhe o Espírito Santo Paráclito, ou consolador.

O mestre Prepostino dá uma terceira razão em sua Summa dos Ofícios, quando diz: o mundo é dividido em quatro partes e o ano em quatro estações; e há quatro elementos e quatro compleições. Como transgredimos a nova lei que se compõe dos quatro evangelhos, e a antiga lei que contém os dez mandamentos, é necessário que dez seja multiplicado por quatro para se ter quarenta, ou seja, é necessário que consumemos durante toda essa vida os mandamentos da antiga e da nova lei. Já dissemos que nosso corpo é composto de quatro elementos, que têm em nós quatro sedes, o fogo que predomina em nossos olhos, o ar na língua e nos ouvidos, a água nos órgãos sexuais, a terra nas mãos e nos outros membros. Nos olhos reside a curiosidade, na língua e nos ouvidos a bufonaria, nos órgãos sexuais  a volúpia, nas mãos e nos outro membros a crueldade. O publicano confessou todas quatro. A fétida luxuria, ao ficar distante do templo, como se dissesse: "Não ouso me aproximar, Senhor, com medo de ofender seu olfato". A curiosidade, ao não ousar erguer os olhos para o Céu. A crueldade, ao bater no peito com a mão. A bufonaria, ao dizer: " Perdoa-me Senhor, sou pecador", pois os bufões eram chamados de pecadores ou glutões.

Porque não observar o jejum na mesma época em que Cristo jejuou, imediatamente após o Seu Batismo? Nós o fazemos antes da Páscoa por quatro razões, explicadas por mestre João Beleth em sua Summa do Ofício. A primeira é que se queremos ressuscitar com Cristo, que sofreu por nós, devemos também sofrer com Cristo na mesma época que Ele. A segunda razão, é imitar os filhos de Israel, que celebram a Páscoa pela primeira vez ao partir do Egito e a segunda vez ao sair da Babilônia. Imitamo-los no nosso tempo de jejum para merecer sair do Egito e da Babilônia, isto é, deste mundo para a herança da terra eterna. A terceira razão, é que como ardores libidinosos são mais frequentes na primavera, convém jejuar nessa época para refrear o corpo. A quarta razão, é que logo depois do jejum devemos o corpo de Nosso Senhor. Da mesma forma que os filhos de Israel antes de comer o cordeiro pascal mortificavam-se comendo amargas alfaces silvestres, nós também devemos nos afligir na penitência antes de podermos comer dignamente o Cordeiro da Vida.



Fonte: Jacopo de Varazze. Legenda áurea: vida dos santos. Editora Schwarcz (2011).



Espero que possamos todos nos motivar a Seguir
os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque
fazer penitência é amar, amar e amar!

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