O efeito protetor do casal é avaliado pela expectativa de
vida mais longa dos casados, a quantidade de doenças físicas e de depressões
bem menor nos casais estáveis. Entrevistas estruturadas e testes psicológicos
mostram que a higiene de vida é melhor e que as angústias se apaziguam
rapidamente nesses canais.
Pode-se detalhar essa contribuição dizendo que a
estabilidade do casal cria um sentimento de familiaridade tranquilizador, que a
confiabilidade do outro dá autoconfiança: ”Posso contar com ela.”; “Ele sempre
esteve presente quando precisei dele.”. Esse entendimento alivia a angústia e
permite que esforços sejam dedicados à aventura social. O ferido recupera com
seu cônjuge a figura de apego primária que, na sua infância, deu-lhe segurança
e o fortaleceu. Quando essa base de segurança falhou, o carente ganha uma
segunda chance e, na sua relação de casal, adquire a força e a tranquilidade
que até então lhe faltaram.
Com a ressalva de que “estabilidade do casal” nem sempre
quer dizer “qualidade de vínculo”. Sentindo-se melhor perto do cônjuge
confiável, o ferido se apega a ele, ainda que a relação seja difícil e custosa:
“É verdade que ele quer que eu desista de uma parte de minha aventura social.
Gostaria de ser jornalista, mas essa é uma profissão que exige muitas viagens,
o que poderia estragar a vida em família de que preciso. Por tanto, vou
desistir dessa vida de aventuras e aceitar entrar numa rotina com ele. Essa
renúncia me custa caro, mas sem meu marido desmorono”.
Nos casais estáveis é comum ver se instalar lentamente o
vínculo de apego seguro que tinha sido destroçado (...). Em geral, o cônjuge
bem desenvolvido sente prazer em ajudar o ferido, sente-se bem ao fazer o bem.
Em contato implícito cria um casal estável, apaziguador, fortalecedor, em que o
desenvolvimento de um apego segura cria um vínculo leve (o que não quer dizer
superficial) em que um fortalece o outro sem encerrá-lo num prisão afetiva.
Fonte: Dizer é morrer: A vergonha - Boris
Cyrulnik [Ed. Wmfmartinsfontes, 2012]
P.S.: Quando o autor usa a expressão "ferido" ele quer se referir a qualquer tipo de problema que gere sofrimente, seja ele físico, psicológico e social.

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