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quinta-feira, 3 de julho de 2014

O efeito protetor de ser um casal







O efeito protetor do casal é avaliado pela expectativa de vida mais longa dos casados, a quantidade de doenças físicas e de depressões bem menor nos casais estáveis. Entrevistas estruturadas e testes psicológicos mostram que a higiene de vida é melhor e que as angústias se apaziguam rapidamente nesses canais.

Pode-se detalhar essa contribuição dizendo que a estabilidade do casal cria um sentimento de familiaridade tranquilizador, que a confiabilidade do outro dá autoconfiança: ”Posso contar com ela.”; “Ele sempre esteve presente quando precisei dele.”. Esse entendimento alivia a angústia e permite que esforços sejam dedicados à aventura social. O ferido recupera com seu cônjuge a figura de apego primária que, na sua infância, deu-lhe segurança e o fortaleceu. Quando essa base de segurança falhou, o carente ganha uma segunda chance e, na sua relação de casal, adquire a força e a tranquilidade que até então lhe faltaram.

Com a ressalva de que “estabilidade do casal” nem sempre quer dizer “qualidade de vínculo”. Sentindo-se melhor perto do cônjuge confiável, o ferido se apega a ele, ainda que a relação seja difícil e custosa: “É verdade que ele quer que eu desista de uma parte de minha aventura social. Gostaria de ser jornalista, mas essa é uma profissão que exige muitas viagens, o que poderia estragar a vida em família de que preciso. Por tanto, vou desistir dessa vida de aventuras e aceitar entrar numa rotina com ele. Essa renúncia me custa caro, mas sem meu marido desmorono”.

Nos casais estáveis é comum ver se instalar lentamente o vínculo de apego seguro que tinha sido destroçado (...). Em geral, o cônjuge bem desenvolvido sente prazer em ajudar o ferido, sente-se bem ao fazer o bem. Em contato implícito cria um casal estável, apaziguador, fortalecedor, em que o desenvolvimento de um apego segura cria um vínculo leve (o que não quer dizer superficial) em que um fortalece o outro sem encerrá-lo num prisão afetiva.



Fonte: Dizer é morrer: A vergonha - Boris Cyrulnik [Ed. Wmfmartinsfontes, 2012]


P.S.: Quando o autor usa a expressão "ferido" ele quer se referir a qualquer tipo de problema que gere sofrimente, seja ele físico, psicológico e social.

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